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Desde: 23/10/2001      Publicadas: 35      Atualização: 15/11/2001

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 Cultura

  06/11/2001
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Renato Russo: A voz de uma geração

Há cinco anos o Brasil perdia um poeta do rock nacional. Renato Manfredini Júnior, que passou a ser conhecido artisticamente como Renato Russo, deixou, aos 36 anos, órfã uma legião de fãs no dia 11 de outubro, às 1h15 da madrugada.

Renato Russo: A voz de uma geraçãoApesar de recusar o rótulo, Renato Russo não demorou para se tornar um mito. O cantor, músico e compositor foi líder de uma das maiores bandas de rock nacional dos anos 80, a Legião Urbana. Influenciado por grupos como The Smiths, Clash e Gung of Four, a Legião foi formada em 1982. Renato era responsável pelo vocal e pelo baixo, acompanhado por Dado Villa-Lobos na guitarra e Marcelo Bonfá na bateria.

Renato Manfredini Junior nasceu no dia 27 de março de 1960, às 4 horas, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. Teve uma infância comum. Soltava pipa, brincava de pique, andava de carrinho de rolimã onde morava, na Ilha do Governador, bairro da Leopoldina. Certa vez, perguntado por uma repórter do Jornal do Brasil se era uma criança introspectiva, respondeu em tom maroto: "eu aproveitava os dias de chuva".
Filho de pai economista do Banco do Brasil e de mãe professora de inglês, Renato teve uma infância tranqüila, em uma família de classe média alta, onde pôde adquirir uma boa amplitude cultural. Principalmente, depois da estada fora do Brasil. Aos sete anos de idade, 'Juninho', como era chamado na época, mudou-se para Nova Iorque, porque o Renato pai iria fazer um curso, logo sendo matriculado em uma escola local. Juninho e Carmem Teresa, sua irmã caçula, puderam então ampliar seus conhecimentos na língua de Shakespeare.
Depois de retornar para o Rio, a família foi morar em Brasília. Ali começaria a fase mais traumática até então. Em 1975, com 15 anos, Renato ficou impossibilitado de andar. Sofria de epifisiólise, uma doença rara que ataca os ossos. Passou por diversos tratamentos e operações. Voltaria a caminhar já aos 17 anos.
Nome artístico - Apesar da complicação natural da situação, Renato acabou aproveitando o tempo para ler. Ele chegou a criar uma banda fictícia, na qual o cantor/alter ego se chamava Eric Russel. O sobrenome artístico era uma homenagem coletiva ao filósofo Jean-Jacques Rousseau, ao pintor naîf Henri Rousseau e ao filósofo Bertrand Russell. Esta mistura filosófica e artística daria origem também ao 'Russo' do Renato.
Antes de realizar o sonho, porém, o futuro músico ainda seria professor de inglês, programador de rádio e jornalista. Lecionando na Cultura Inglesa, foi escolhido pela entidade para recepcionar o Príncipe Charles quando o monarca inaugurou uma das filiais do grupo. E lá estava Juninho com seu inglês perfeito.
Andava com uma certa 'Turma da Colina'. Rapazes que se reuniam em um conjunto de prédios construídos para abrigar professores e funcionários da UnB. Um enclave de liberdade em uma Brasília sombria. Embaladas por maconha e garrafões de vinho, diversas bandas de punk rock surgiram do núcleo cultural.

Fama inesperada

No quarto de hotel locado pela gravadora em Copacabana, em 1984, houve um encontro lendário, inédito e muito louco entre Raul Seixas e Renato Russo. "Falavam em um dialeto que não era português, inglês ou nada parecido. Dava para ver raios no quarto", jura Bonfá. Rauzito tinha encontrado Marcelo, Dado e Renato no corredor. "Vocês têm aquele disco marrom lá?" Era a senha para a maconha. Passaram a noite fumando, distraídos por papos para lá de psicodélicos.
Após dois meses em Brasília, tiveram a notícia de que o produtor do disco seria o jornalista José Emílio Rondeau. Com ele, chegaram a um acordo entre o que a gravadora desejava e o que os meninos aceitavam fazer. Pouco tempo depois seria lançado o disco Legião Urbana. Havia quem dissesse na EMI que o objetivo era vender Paralamas e empurrar Legião. Mas o vinil estrapolou as espectativas, vendeu de início 50 mil cópias.
Juninho agora já era Renato Russo. E nos tempos que se seguiriam teriam muito dinheiro, bebida, criatividade, brigas e amor. Como em Pais e Filhos, quarto disco da banda, uma sucessão de erros e acertos que ninguém entende porque acontecem, mas que acabam tornando as pessoas infelizes. Pouco antes de sua morte, no dia 11 de outubro, falou para dona Maria do Carmo, com ar tristonho: mãe, só fui feliz na infância.
Em 1988, alegando não poder enganar mais seu público, Renato Russo assumiu publicamente ser homossexual. "Isto faz parte da minha vida, não é um problema", costumava dizer. E realmente não era. Problemático eram seus relacionamentos afetivos.
O cantor teve duas grandes paixões. A primeira foi em 1990, quando conheceu em um bar de Nova Iorque, o americano Robert Scott, viciado em anfitaminas. O relacionamento durou dois anos e o rapaz chegou a morar com Renato no Rio de Janeiro. Numa temporada americana, chegaram a compartilhar durante um mês e meio sessões de heroína. "Acho que vou ficar uns dez anos escrevendo músicas do tipo meu amor partiu", comentou na época.
Para sair da depressão, Renato gravou em 1994 o disco solo The Stonewall Celebration Concert, no qual interpretava canções populares americanas. O álbum comemorava 25 anos do surgimento do moveimento gay nos Estados Unidos e trazia no encarte uma recordação deixada por Scott.
A outra paixão de Ranato foi o carioca Cristiano, um garoto de periferia com que o artista se relacionou até meados de 1995. O rompimento aconteceu durante a gravação do segundo disco solo Equilíbrio distante, só com canções italianas.
No final de 90, o poeta buscou a alto-internação para tratar do alcoolismo. Colocou fogo na clínica em protesto pela proibição de tocar violão para os outros pacientes na festinha de fim de ano. Era também uma maneira de pressioná-los a deixar ele passar o dia 24 de dezembro em casa com os pais. O "acidente" não teve importantes conseqüências e o obstinado Renato pôde ter um Natal em família.
O músico comprou um apartamento em Ipanema, Zona Sul do Rio. Andava muito deprimido, tenso, irritadiço e bebendo como um louco. Tinha certeza de que estava com Aids. Faltava coragem para fazer o exame. Talvez por isso, quando recebeu o resultado que comprovava suas desconfianças, tenha tido uma reação, se não conformada, fatalista.
Poucas pessoas ficaram sabendo da notícia. Seu pai, Rafael Borges, Dado, Bonfá e Denise Bandeira, atriz e grande amiga de Russo. Embora admirasse Cazuza, não seguiria os passos do colega. A idéia era manter tudo em segredo. Até seis anos depois, quanto veio a falecer, existiam algumas suspeitas, mas nada foi confirmado em público.
Antes da morte, o carinho dos fãs
Com 20 quilos a menos que os 65 habituais, barba comprida, Renato Russo morreu à 1h15min, no dia 11 de outubro de 1996, naquela que seria uma inesquecível sexta-feira para os milhares "legionatários" espalhados pelo país. O artista perdera a luta de seis anos contra a Aids.
"Ele se entregou", desabafou sua mãe, Maria do Carmo, logo após a cremação do corpo, no dia seguinte, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. "Nos últimos tempos ele não cansava de repetir: 'Mãe eu não sou daqui' " Estava atormentado e com crises de depressão.
Nas últimas semanas de vida, Renato não saía de casa, recusava-se a comer, afastou-se dos amigos. Trancou-se no seu apartamento em Ipanema (zona sul carioca), em companhia apenas de seu pai e de um enfermeiro. Não queria mais tomar o doloroso coquetel de drogas. "Quando eu tomo o coquetel, é como se estivesse comendo um cachorro vivo. E o cachorro me come por dentro", disse a um amigo.
À tarde, vizinhos repararam que a música, sempre alta no segundo andar do prédio da Rua Nascimento Silva, havia cessado. E os fãs não deixaram de reparar: a frase URBANA LEGIO OMNIA VINCIT (A Legião Urbana tudo vence, em latim), estampada no encarte de todos os discos da banda, estava ausente de A Tempestade, seu último álbum.
Brigas - O criador da "geração coca-cola" deixou o mundo sem fazer as pazes com a cidade onde foi criado e onde iniciou sua carreira. Desde 1998, quando um show do Legião Urbana terminou em confusão, Renato Russo se negava a cantar na capital do país. "Não toco mais em Brasília", repetia várias vezes para os amigos. Para completar, ele passou pelo constrangimento de ser vaiado ao dar uma canja num bar durante a apresentação de uma banda de blues.
Sua mãe recebia ligações diárias de fãs. "É incrível o carinho que eles têm pelo meu filho. Sentem muita falta dele e me pedem todo tipo de coisa. Um dia, uma menina me ligou desesperada pedindo os óculos do Júnior. Infelizmente, nem que eu cortasse em pedacinhos de todos os tapetes e das cortinas da casa dele não daria para atender a todo mundo".
  Autor: Vanessa Mauri


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